QUINTA-FEIRA, 27 DE JULHO DE 2023 ÀS 08:28:42
'São cinco anos e quatro meses resistindo', diz mãe de Marielle Franco, que faria 44 anos nesta quinta-feira

Marielle Franco completaria 44 anos hoje. Desde seu assassinato — aos 38, em 14 de março de 2018 —, emoções contrastantes dominam a família a cada aniversário. A compreensível mistura de sentimentos ganhou força com a delação de Élcio de Queiroz, trazida a público na última segunda-feira: ele confirmou que dirigiu o carro usado no crime e que Ronnie Lessa foi o autor dos disparos contra a ex-vereadora e o motorista Anderson Gomes. Suas revelações também levaram à prisão de outro envolvido no caso, o ex-bombeiro Maxwell Corrêa, o “Suel”, e, de forma inédita nos últimos cinco anos, soam como avanço nas investigações para a descoberta de um ou mais mandantes.

 

Na entrevista ao GLOBO realizada ontem, entre a saudade de sempre e a surpresa com as notícias mais recentes, os pais de Marielle buscam se aferrar às lembranças da pulsão de vida e da alegria da filha. Mas não é fácil. O aposentado Antônio Francisco da Silva Neto, 71 anos, não esconde a surpresa:

 

— Ele falou que a intenção era assassinar no fim do ano (em seu depoimento, Queiroz contou sobre planos para o atentado no final de 2017).

 

Marinete, advogada e católica fervorosa, com a mesma idade do marido, estremece ao cogitar como seria lidar com a tragédia perto do Natal.

 

— Nem posso imaginar isso. Deus me livre — desabafa ela.

 

O casal evita mencionar nomes dos acusados, no que parece ser uma estratégia de defesa emocional quando o debate em torno dos acontecimentos volta a esquentar. Seu Antônio especula outras datas, sob o efeito das confissões do delator:

 

— A gente fica pensando... Na véspera do assassinato, numa terça-feira, Marinete foi à Câmara dos Vereadores, a encontrou e depois rodou umas 20 farmácias da Tijuca com o motorista, o Anderson, porque Luyara (Franco, filha da vereadora) estava com conjuntivite. De repente, naquele dia, os caras estavam próximos, mas, como a mãe acompanhava, avaliaram isso, ou não tiveram chance devido à localidade.

 

 

Choro ao telefone

 

A notícia da prisão de outro suspeito chegou ao aposentado na segunda-feira, em ligação da filha Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, que está na Colômbia.

 

— Eu passei mal. Coincidiu de ela me ligar quando eu estava sozinho. Eu chorei para caramba no telefone, me deu um aperto no coração. Sentei... Pensei: “Será que é hoje o meu dia?” No aniversário da Marielle costuma vir a memória de como ela era festeira, mas também um sentimento de dor, ainda mais nesta semana. Depois de os caras detalharem tudo, como fizeram, como iam fazer... Quando a gente vê aquilo fica (suspira, e os olhos marejam)... abalado.

 

 

Marinete Francisco com o retrato da filha Marielle Franco — Foto: Leo Martins / Agencia O Globo

Marinete Francisco com o retrato da filha Marielle Franco — Foto: Leo Martins / Agencia O Globo

 

 

Marinete busca forças na religião. Hoje distante de Bonsucesso, onde a família vivia, o casal mora numa casa alugada de três quartos. Os cômodos têm centenas de objetos que remetem a Marielle: fotos da filha, quadros com desenhos, suvenires de girassol (que viraram símbolo na época do slogan “Marielle, semente”), recordações da infância à vida adulta, dezenas de esculturas de santos, um grande retrato com Papa Francisco e muitos presentes enviados do exterior e de estados do Brasil. Nesse acervo de memórias, a matriarca reforça que o dia 27 de julho tem um significado que deve se sobrepor às mazelas:

 

— Esta data traz a vertente do nascimento da Marielle. Apesar de ela não estar aqui fisicamente, queremos celebrar a vida, o dia que pari minha filha, que tem um simbolismo muito grande, Ela nasceu, foi uma criança saudável e entrou nessa luta cedo. A gente vive na nossa fé. Não dá para imaginar que a vida dela parou em 2018. Ao contrário: Marielle se renova, com sua pluralidade, trajetória, mulher de história católica.

 

 

Homenagens multiplicam

 

Devota de Maria, a família estará hoje na Igreja Nossa Senhora do Parto, no Centro. À tarde, a Favela da Maré, berço de Marielle, vai abrigar o lançamento da fotobiografia da vereadora.

 

— Eu e elas sempre fomos mulheres de terço. Hoje o Padre Gegê, de Bonsucesso, um amigo, vai estar na missa. Com esses avanços (nas investigações), fica tudo muito presente. Mas é tempo de gratidão, de rezar e de pensar no seu propósito. Isso faz com que a gente continue essa luta.

 

Em meio à luta para saber quem mandou matar Marielle, a matriarca enfrentou um câncer de mama. Curada, monitora com exames:

 

— Na época do câncer, foram três cirurgias num só seio. Se for parar com minha dor, não vou fazer nada. Aqui em casa, agora, o que resta da família sou eu e Toninho. São cinco anos e quatro meses resistindo. Não sou a primeira mãe que passa por tudo isso. Muita gente não aguenta. Não tenho tempo para terapia, as coisas precisam continuar. A vida vai dando jeito.

 

 

Marinete Francisco grávida de Marielle — Foto: Arquivo pessoal

Marinete Francisco grávida de Marielle — Foto: Arquivo pessoal

 

 

Seu Antônio fica com os olhos marejados mais uma vez ao dizer que o sorriso da filha mais velha rearranja seus pensamentos:

 

— Se eu pudesse, daria muitos abraços nela. Minha filha era muito linda. Até hoje eu a guardo assim. Seu cartão de visitas era o sorriso. A retórica era excelente também. Hoje em dia, vejo na Erika Hilton (deputada federal pelo Psol de São paulo) algo semelhante — diz. — Do trabalho da Marielle surgiram sementes. Esse legado está aí.


Fonte: O Globo